Por Rubens Tavares, CEO da BMS Consultoria Tributária
Ao longo dos últimos anos, tenho visto situações em que questões relacionadas à saúde mental ultrapassaram rapidamente a esfera da gestão de pessoas e passaram a produzir efeitos relevantes sobre o jurídico, o previdenciário e, principalmente, sobre o resultado financeiro das organizações.
O Brasil convive com uma das maiores taxas de ansiedade do mundo, enquanto os afastamentos relacionados a transtornos mentais crescem de forma consistente. Esse cenário torna as empresas mais expostas a riscos que nem sempre aparecem no momento em que o problema ocorre. Muitas vezes, eles surgem meses depois, quando começam as ações trabalhistas, aumentam os benefícios previdenciários, cresce a rotatividade ou os indicadores da folha de pagamento passam a refletir custos que poderiam ter sido mitigados.
É justamente aí que muitas organizações cometem um equívoco. Tratam a saúde mental como um evento isolado, quando, na prática, ela desencadeia uma sequência de impactos interligados.
Um afastamento pode gerar aumento dos custos previdenciários, influenciar indicadores como FAP e RAT, provocar perda de produtividade, elevar despesas com recrutamento e treinamento e ainda resultar em litígios trabalhistas. Individualmente, nenhum desses fatores costuma comprometer uma empresa. O problema aparece quando todos acontecem ao mesmo tempo.
Depois de anos acompanhando empresas na gestão de riscos tributários, previdenciários e trabalhistas, aprendi que os maiores passivos dificilmente nascem de um único evento. Eles surgem quando diferentes áreas analisam o mesmo problema de forma isolada.
Enquanto o RH administra o afastamento, o jurídico acompanha uma eventual ação trabalhista. A área previdenciária avalia os impactos sobre os benefícios. O financeiro absorve o aumento dos custos. A controladoria registra a perda de produtividade. Cada departamento faz seu trabalho, mas poucos conseguem enxergar o efeito agregado dessas decisões sobre o negócio.
É por isso que acredito que saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de compliance ou de gestão de pessoas. Ela passou a integrar a agenda de governança corporativa.
Empresas que estruturam processos preventivos, monitoram indicadores, documentam adequadamente suas ações e promovem uma atuação integrada entre RH, Saúde e Segurança do Trabalho, jurídico, previdenciário e financeiro conseguem reduzir significativamente sua exposição a riscos futuros. Não apenas porque reagem melhor aos problemas, mas porque passam a identificá-los antes que se transformem em passivos permanentes.
A discussão sobre saúde mental continuará, com razão, centrada nas pessoas. Mas limitar o debate apenas ao aspecto humano significa ignorar um componente cada vez mais relevante para a sustentabilidade das empresas.
Hoje, cuidar da saúde mental dos colaboradores também significa proteger produtividade, reduzir custos, preservar competitividade e fortalecer a governança.
E talvez essa seja uma das mudanças mais importantes que o ambiente corporativo precisa compreender: em um cenário de crescente pressão sobre custos e eficiência, saúde mental deixou de ser apenas um tema do RH. Tornou-se, definitivamente, um tema de gestão empresarial.