“Não Somos Mula”: Rogério Reis transforma a inventividade dos trabalhadores da praia em arte

by Amarildo Castro
Ao longo de mais de cinco décadas de trajetória, Rogério Reis construiu uma das obras mais importantes da fotografia brasileira contemporânea investigando a cidade do Rio de Janeiro e as formas como seus habitantes ocupam, transformam e reinventam o espaço urbano. Desenvolvida ao longo de anos de caminhadas pela orla carioca, uma de suas mais recentes pesquisas volta-se para as engenhosas estruturas criadas pelos trabalhadores da praia para organizar o trabalho na areia. Sob o olhar do fotógrafo, esses artefatos ultrapassam sua função prática e revelam uma inesperada potência plástica, aproximando-se da linguagem da escultura e da instalação. Essa investigação ganha agora um recorte expositivo inédito em Não Somos Mula, mostra que será inaugurada no sábado, 1 de agosto, no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica

Reunindo cerca de 120 fotografias, entre impressões e projeções, a maioria apresentada pela primeira vez ao público, a exposição reúne imagens produzidas ao longo dessa pesquisa e transforma um universo cotidiano em uma reflexão visual sobre trabalho, invenção, autonomia e paisagem. Resultado de caminhadas diárias pela orla carioca, a mostra desloca o olhar da paisagem para aqueles que a constroem diariamente: os trabalhadores da praia, protagonistas de uma economia que movimenta R$ 5,2 bilhões por ano apenas na faixa de areia, segundo o estudo Economia das Praias do Rio, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico.

Em vez de retratá-los em ação, Rogério concentra sua atenção nas soluções criadas para transportar mercadorias e organizar o trabalho. Caixas térmicas, cadeiras, guarda-sóis, carrinhos, mastros e estruturas improvisadas deixam de ser apenas objetos funcionais para revelar novas possibilidades de leitura da paisagem urbana. O desafio é achar o meu sujeito em meio a uma paisagem muitas vezes caótica.”, afirma Rogério Reis. Conhecido por transformar o cotidiano em poesia, Rogério desenvolve, há décadas, uma obra profundamente ligada ao Rio de Janeiro e ao espaço público.

Não sou um fotógrafo viajante. Me basta a minha cidade”, afirma. Ao isolar visualmente esses artefatos, o fotógrafo evidencia soluções inventadas para responder às exigências do trabalho cotidiano. Objetos concebidos para a sobrevivência econômica passam a revelar também uma dimensão estética. “O que faço é uma sistematização dos artefatos funcionais da economia da areia.”O título da exposição nasce de uma expressão usada pelos próprios trabalhadores da praia. 

“Não somos mula” afirma a autonomia de quem constrói diariamente seu sustento sem patrões e estabelece, ao mesmo tempo, um diálogo simbólico com a liberdade criativa de Rogério Reis. Para o diretor do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, César Oiticica, a exposição reforça a vocação do espaço para a fotografia contemporânea. “O trabalho do Rogério dá continuidade ao espaço reservado no Centro Hélio Oiticica para a fotografia. É motivo de orgulho ter um nome tão forte da fotografia brasileira mostrando trabalhos inéditos que continuam esse diálogo poético do artista com a cidade do Rio de Janeiro.” 

Wilton Montenegro, autor do texto crítico da exposição, destaca que os objetos fotografados por Rogério são apenas a superfície de algo maior. “O que lhe importa é o humano em estado de invenção.” Wilton observa que os chamados “totens” deixam de ser apenas instrumentos de trabalho para adquirir presença escultórica, revelando novas formas de compreender a paisagem e os modos de ocupação do espaço urbano. 

A exposição Não Somos Mula propõe uma reflexão sobre a capacidade humana de inventar soluções, ocupar territórios e transformar necessidade em criação. Sobre Rogério ReisRogério Reis é um dos mais importantes fotógrafos brasileiros contemporâneos, com inserção internacional. Sua produção, marcada pelo diálogo com o espaço urbano investiga as relações entre cidade, território, trabalho e cultura urbana. Em 2026, foi convidado a integrar a exposição Photography Letter by Letter, realizada pela Neuflize OBC Foundation em parceria com a Maison Européenne de la Photographie, que celebra o Bicentenário da Fotografia ao lado de nomes como Sophie Calle, Nan Goldin Robert Mapplethorpe, Candida Höfer e Rineke Dijkstra. Ao longo de mais de cinco décadas de trajetória, construiu uma obra dedicada a investigar a cidade do Rio de Janeiro e seus modos de ocupação, contribuindo para a formação do imaginário identitário carioca.

Recebeu o Prêmio Nacional de Fotografia da Funarte (1999) e, em 2002, sua famosa fotografia de Carlos Drummond de Andrade em Copacabana inspirou a estátua em bronze instalada no calçadão da praia. No mesmo ano, inspirou o personagem do fotógrafo-editor no filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Suas obras integram importantes coleções no Brasil e no exterior, como a Maison Européenne de la Photographie (Paris), a Bibliothèque Nationale de France, o Museu de Arte do Rio (MAR), o MAM Rio, o MASP, entre outras instituições. 

ServiçoExposição: Não Somos Mula – Rogério Reis
Abertura: 1º de agosto de 2026 – de 14h às 18h
Visitação: até 29 de agosto de 2026
Horário: segunda a sábado, das 10h às 18hLocal: Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica
Endereço: Rua Luís de Camões, 68 – Praça Tiradentes, Centro, Rio de Janeiro
Informações: (21) 2242-1012 
Link imagens e textos: https://drive.google.com/drive/folders/1nRNnyS1p8-Ll9_BvVPksscYd2saVhWLH
Assessoria de Imprensa Rogério Reis:Anna AcciolyA Dois Comunicação

Postagens relacionadas

Deixe um comentário